
A tarde estava cinzenta, a chuva encostava-se a vidraça da camioneta, ainda assim o Campo Pequeno estava longe…
Os metros rápidos não permitiam grandes devaneios, a sociedade obriga-nos a ser toupeiras mesmo que não queiramos!
Chega à imponente praça de Toiros , dito à moda olissiponense, O Campo Pequeno, parecia foi ganhando valor, cor e respeito á medida que o breu da noite ia avançando! O Sound check ouvia-se cá fora e juntava-se com os sons da cabine da M80 que, mesmo estacionada, fazia propagação local da rádio que patrocinava o evento…o metro que corria em baixo, os carros do outro lado da rua, as pessoas que ali sentadas aguardavam a abertura das portas e que falavam enquanto as solas batucavam o basalto e as escadas do centro comercial, davam-nos a clara sensação de que o silencio ali não fora convidado e estava notoriamente a mais!
Lá dentro a vida era outra! Mais pequeno que qualquer coliseu nacional, víamos o palco encostado à parede do circulo e em redor a decoração hispânico-lusitana, de arcadas e cadeiras vermelhas em desalinho, dada a assimetria conjugada pelo círculo perfeito em redor do recinto tauromáquico...Era um ambiente caloroso diga-se!
Estava eu sozinha em perfeita cavaqueira com uma recém conhecida das mesma idade ou próxima que eu e um recém metido à conversa que rondava os seus 50 e muitos, a desvendar experiencias de concertos e bandas, quando a recém conhecida rapidamente se ausenta com um já venho!”… cutucam-me do lado e quase em surdina me alertam “eu também não sou de cá, sou de Anadia e tenho ouvido a sua conversa…tenha cuidado, pois esse fulano é carteirista no metro aqui em Lisboa, está tudo a ser alertado!”. Por momentos pensei em deslocar-me para junto dos criadores do site de fãs português dos Alphaville, pois já me tinham abordado na fila de entrada e estavam em alta animação do outro lado, mas imaginei que perder o meu lugar cimeiro seria péssimo e queria continuar a cavaqueira com a moça que nunca mais voltava e assim teria o fulano atrás de mim em perfeito controlo…E ali fiquei!
Os Gomo subiram ao palco pelas 21h e durante aquela tortura sonora de 45minutos, em que tais imitadores de bandas brit-pop ,com as suas gravatas finas , entediavam o publico, eu ia perdendo a bateria no meu telemóvel! Não poderia gastar em fotos ou vídeos senão ficaria incomunicável…Mas não adiantou desliga-lo…Passei a palavra ao lado e o casal de namorados sentiu igualmente receio do carteirista…
Quase 22h e a banda de Marian Gold ainda não tinha entrado! Que stress louco!...
Até que tudo escurece e entra um gordo loiro de guitarra na mão, um fulano magro para a bateria e os teclados preenchidos por um senhor nos seus 60 e muitos…e Marian assome numa indumentaria frugal, escura, e muito ledo e sorridente para todos! Uma casa cheia recebe-o feliz!
Iniciam o show com “Gallery” e umas novas músicas a serem incluídas no novo álbum que irão brevemente lançar…
Mas quando a “Dance With Me” começa, não há cadeiras que se ocupem! O rapaz que andava com a bebida às costas e a vender coca-colas, via-se aflito para servir as pessoas sem quase cair! Todos a dançar com a banda! Que misturas! Fantástico!
"Monkey In The Moon", "A Victory of Love’", uma soberba "Wishful Thinking" que ele fez questão de apresentar como uma das suas baladas favoritas (balada de letra, mas não em som!), uma “Red Rose” sem espinhos seguiu-se, acompanhados com uma cronologia da banda, com a vida de Marion em relevo, a passar no painel atrás…Mas foi a speedada “Sounds like a Melody “ que levou a multidão ao transe total! As luzes psicadelicavam as cabeças, o único parado era mesmo o carteirista que não conseguia o seu intento! Sem dúvida um momento altíssimo de extrema apoteose, sonora e visual!
Um dos momentos calmos veio com a “Carry your flag”, com imagens do mundo a correrem no painel, e uma bandeira humana a esvoaçar com ramos de arvores ao vento…E com a “Jerusalem” todos nos remetemos a devoção daquele quarteto….”Around the Universe” soou e o painel éneo abraçou a “‘Golden Feeling’” numa das várias versões possíveis, mas sempre muito “charming” e sempre muito capaz de ser “Another chance to turn you on” como repetíamos!
Um brasileiro não parava de querer oferecer um ramo de rosas, e nós a querermos ajudar, mas a banda era inexorável, não estava para perder tempo para grandes falas ou quaisquer quebras! Queriam era tocar, tocar e tocar…Uma música em alemão e eu sem perceber bolha do que dizia, mas não era o mais importante, pois o truque estava nas misturas do teclado e da fusão da guitarra!
Entretanto o campo torna-se grande e vermelho, à medida que umas letras pretas japonesas se sucediam sobre a tela auriflamante, ao passo que Marian batia duas palmas seguidas e o publico copiava, para abrir espaço a uma aguardada “Big In Japan”! Não foi porém a melhor versão alguma vez ouvida, talvez por a banda já estar habituada a toca-la demais, mas foi enorme! Até que os ânimos se acalmaram e todos na bancada se puseram novamente de pé para homenagear a frescura da juventude eterna com “Forever Young” . Creio que foi o momento mais brando da noite! Onde finalmente o brasileiro que trabalhava no lar de idosos pode oferecer à vontade o seu bouquet, pese embora o facto de Marian o ter recebido e no mesmo instante o ter arremessado para o chão junto da bateria, sem postumamente facultar qualquer tipo de elogio…São alemães, não vieram para grandes floreados!
Retiram-se para fazer um encore, com a musica “Apollo”, que deu origem ao site de fãs português e uma bem dispensável “Jet Set” com notas e dólares a correrem no painel…
Despedem-se e quando ninguém está a contar voltam para um segundo encore, Marian com uma Super Bock na mão, dizendo que foi “a única cerveja que lhe deram para beber já que não havia outra coisa!” um pouco lacónico, comparativamente ao inicio do concerto, com a musica “Dance With Me” em versão balada, com um só foco a apontar para o vocalista…A meu ver uma má escolha, já que tinham tocado esta música antes, não é uma música por ai além para ser transformada numa balada e tem baladas que poderiam perfeitamente ser tocadas, aliás, pecaram pela escassez de baladas em todo o certame…teria cabido perfeitamente uma “She Fades Away” ou uma “Moonboy” para refrear a velocidade e o calor excessivo que todos os presentes emanavam !… Mas deixaram a promessa que para o ano voltam com o seu novo álbum! Sem grandes vénias, despediram-se contentes pelo bom espectáculo que deram e por terem cativado o publico de princípio ao fim!
A Célia, como muitas Célias cheias de vida e cor por aí, que mesmo namorando, vão a concertos sozinhas, pois os namorados tais autênticos idiotas preferem espera-las na sua prostração doméstica, despede-se de mim para o outro lado da margem...
Sozinha e incomunicável, nem nos cafés, em grandes quermesses aquele povo acode os de fora! Apenas me indicaram uma cabine do outro lado da rua. O metro já não passava em baixo…Na cabine tentei em vão colocar moedas, para um “PI” que insultava os meus ouvidos e não obedecia às minhas teclas…Nesse momento esqueci-me das quezílias que tenho com os taxistas e pedi o fantástico Samsung i617 ao primeiro da fila, que gentilmente confiou em mim e me deixou tentar ligar de fora do seu carro…Que vanidade! “Siga por favor, deixe-me na gare do Oriente para a camioneta me levar!” E ganhei um amigo de paleio pela viagem. Nem o sono me vinha ao passar na rua do restaurante “O palheiro”. Estava demasiado alerta…
A camioneta estava demasiado cheia, demasiado inter-racial, quase me arrisquei a não ter lugar por não ter marcado a hora de regresso…Porém a sorte é a minha fiel companheira e junto da luz azul da camioneta, deixou-me descansar em sossego para quando chegasse ao porto, tivesse energia suficiente para rapidamente percorrer a passo ligeiro e obstinado o caminho de casa, enquanto a minha almofada às 5:30h da manha me aguardava ansiosa para ouvir os meus segredos…