domingo, 10 de abril de 2011

Grande Roger Waters, foi Brutalíssimo!


Por vezes ouço as pessoas dizerem sobre os concertos “ Ai, já vi fulano ou X banda uma vez e chega. Ir ver mais do mesmo é gastar dinheiro em vão!” e vejo o quanto penso de forma diferente! Para mim o que é bom é para ser apreciado, o que é muito bom é para ser repetido e louvado!


Tive que esperar que passassem no mínimo dois dias para começar a escrever isto, porque a emoção foi tanta nas 48h que se seguiram ao espectáculo , que pensei que se fosse escrever o que quer que fosse, não teria lucidez digna de espectadora…


E ainda assim, continua a ser difícil concentrar-me nas palavras, tal a ressaca emocional que sinto como se fosse uma toxicodependente há muitas horas a ansiar pelo consumo da sua droga… Vi Roger Waters pela primeira vez em 2006, no Rock In Rio, em Lisboa,na tourné do Dark Side Of the Moon, num dos maiores concertos do festival e da minha vida. Foram mais de 3horas de concerto com um intervalo de 20minutos, e apesar de na altura ter perdido todos os transportes possíveis para chegar a tempo de apanhar o comboio e de ter ficado revoltadíssima por ter chegado ao Porto no fim da manhã em vez de madrugada, pensei que se um dia ele voltasse ao nosso pais, eu voltaria a vê-lo. E não me arrependi!


Como vem sendo do seu apanágio comemorar 30 anos de existência de cada álbum, ou quase, coube iniciar em 2010 uma tournée que celebrizasse os 30 anos do álbum The Wall (1979), um dos mais vendidos na história da música e um dos mais marcantes na História da época, em que o mundo vivia dividido a partir de Berlim, numa Guerra Fria. Foram precisos 10 anos depois para que o verdadeiro muro desabasse, e que em 1990 congratulasse a respectiva cidade com um dos maiores concertos ao vivo de sempre, uma superprodução digna de filme! Desde Junho do ano passado que os bilhetes foram postos à venda e eu não quis esperar que esgotassem e antecipei-me para o único dia disponível entretanto. Esgotou cedo, em três ou quatro dias penso…A ideia do segundo concerto para o dia seguinte não demorou muito e mais ingressos estariam disponíveis.


Tinha a noção que seria uma grande produção do The Wall, mas não quis dar grande importância, nem estava muito fervorosa para ser franca. O fervor é algo de inato, tem a ver com a ansiedade da espera, a forte expectativa que temos em relação a algo ou alguém e desta vez, talvez por terem sido 9 meses de espera, tive tempo de sobra para ter germinado uma vida de afazeres e não uma gestação de fanatismos ou delírios típicos de um crente em fase quase terminal! Por outro lado, já conhecia o álbum e não andei a ouvi-lo. Andei sim a ouvir a sua discografia a solo, pensando até que ele fosse tocar alguma música dele. Não poderia estar mais enganada! A prova como estava pouco expectante viu-se ainda no facto de eu não ter visto vídeos da tournée, nem ter comprado revistas que falassem no assunto ou lido artigos relacionados na internet. Absolutamente nada! Deixei-me levar pela surpresa de quem é analfabeto e não se importa de o ser e assim se manter.


Sai de casa, já um pouco atrasada para o comboio das 14:52. Até que o perdi mesmo! Na recepção de Campanhã, o senhor que me vendia o bilhete, estacou atónito quando lhe perguntei como seria o bilhete de regresso no “Especial Roger Waters” pois mesmo estando um tempo primaveril e quente não estaria para passar a noite no Oriente de novo! “Então quantos bilhetes quer menina?!” “Um se faz favor!”, “Só um?! “ Redarguiu… “Pois, vê-me com mais alguém senhor?! Se me quiser fazer companhia terei todo o gosto!”, “ Não posso menina, infelizmente, mas tem sorte, pois vai ver um GRANDE espectáculo! Quem me dera a mim poder ir ver! Vale mesmo a pena!”. Acabei por apanhar o Alfa seguinte para não ter que aguardar tanto tempo pelo próximo Inter-Cidades e chegar lá quase em cima da hora, sim, por que em situações normais me recusaria a fâze-lo! A viagem foi agradável. Lisboa aguardava-me com um calor bom, cheia de gente em rebuliço.


Entrei no shopping Vasco da Gama para comer algo, não havia restaurante que não estivesse a abarrotar! Ou se almoça tarde por aqui, ou se janta demasiado cedo! Pela varada via filas de pessoas para entrarem no Pavilhão ansiosas por verem o Waters. Eram pessoas de várias idades, mas principalmente dos seus 30 para cima, os fiéis fãs de Pink Floyd…


A cerca de 20 minutos das 20h, as portas abrem-se enquanto eu ainda lambia os dedos do cachorro quente que acabava de comer. Entrei logo atrás de um rapaz com camisa aos quadrados que como eu lá estava sozinho. Lá dentro a plateia e as bancadas enchiam rapidamente, com as pessoas a olharem boquiabertas para o palco e o que parecia prometer um espectáculo e pêras! …


De ambos os lados do palco, pedaços incompletos de muro branco, de esferovite creio, se encostavam às paredes das bancadas, deixando a abertura central para os instrumentos e uma grande tela circular atrás que lembrava a tournée do Pulse ou a que foi usada no Live em Pompeia. Ao centro e à frente mas a pender para o nosso lado esquerdo, estacava um manequim negro com uma gabardine e óculos igualmente escuros. Um pormenor curioso no braço esquerdo da gabardina era uma braçadeira vermelha com martelos a fazerem de cruz suástica como se tratasse de um símbolo nazi… Não haveria banda de abertura, o espectáculo iria ser tão bom que se houvesse algum convidado antes estragaria tudo! Para esquecer os longos minutos de espera, lá meti conversa com o rapaz da camisa aos quadrados que a certa altura, cheio de sede, furou a multidão para ir buscar uma cerveja enquanto eu lhe guardava lugar. Nesse instante lembrei-me que à semelhança do que aconteceu há um ano quando fui ver Alphaville ao Campo Pequeno,estava incontactável, com o telemóvel descarregado, mas em vez dum velho carteirista, tinha ali um estudante de Filosofia Juridica que estava desejoso de voltar a estudar Filosofia apenas e deixar o Direito de parte, pelo que o contacto era mais fluído!


20:45, não tardaria muito a entrar o avôzinho das boas cantigas e dos cenários. A sua pontualidade britânica e virginiana manter-se-á seguramente até à sua sepultura! Uma entrada apoteótica com “In The Flesh” dá lugar à incredulidade geral! Ele surge junto aos três cantores de coro, ao mesmo tempo que o fogo de artificio cruzado em tons de vermelho pinta e esfumaça o palco em rasgos de segundos! Soldados vestidos de nazi , envergando bandeiras com a mesma suástica onde por baixo se lê “Trust Us”, caminham em cima dum andaime superior, em fila, descendo de seguida para manter a solenidade da parada quase militar. Dois deles voluntariam-se para ajudar Roger Waters a vestir a gabardine e a colocar as lunetas escuras do manequim! E grita "Lights! Turn on the sound effects! Action!" Com foguetes luminosos, bem sonoros à mistura de hélices de helicóptero e de turbinas de avião, a trilha se encerra com o embater de um "Stuka" no lado direito do palco e a deitar por terra alguns blocos de esferovite deixando atrás de si um rasto de explosão no ar que se apaga subitamente com o fim da música!


Segue-se a música “Thin Ice”, emocional, a acompanhar a lenta construção do muro, com a imagem de Eric Waters, o seu pai, falecido na 2ª Guerra Mundial e outros soldados mortos quer nas Guerras mundiais, quer na Guerra do Médio Oriente! Se o ambiente já estava animado, ainda mais ficou com a entrada da “Another Brick in The Wall I”, quando do lado direito do palco, se desenrolam primeiro as pernas e depois o tronco e a cabeça de um enorme professor insuflável de vara numa mão e grandes olhos com lâmpadas a servir de menina dos olhos! Entra um coro de crianças vestidas de t-shirt preta com a mensagem escrita em branco: “Fear Build Walls”. Crianças “recrutadas” à Cova da Moura, um bairro muitas vezes problemático em Lisboa. Cantavam ”We don’t need no education, we don’t need no thought control” e tentavam enxotar o infindável professor!


The Happiest Days Of Our Lives” ouve-se, para preparar o público para a grandiosa e ultra conhecida “Another Brick In The Wall 2”, um grito inconformado do sistema, a revolta do isolamento recluso entre-muros na História europeia que se vivia na década de 70. O momento mais marcante desta música para além dos solos do Snowy White, foi ver correr projectado em alta velocidade no muro um comboio da direita para a esquerda com efeitos de luzes sobre o palco e sobre a plateia! Soberbo mesmo!


O concerto estava ainda longe do fim e já o público estava mais do que conquistado e ainda mais siderado ficou com a entrada da guitarra em punho na “Mother”! Porém, ainda antes de entrar, Waters faz uma intervenção verbal, fala dos 31 anos que se passaram desde o lançamento do álbum e relembra aos portugueses com orgulho que Portugal foi a casa escolhida para iniciar esta enorme Tour na Europa! O público delirou claro! Do lado esquerdo uma enorme e larga boneca insuflável com ar sisudo, de avental, braços gordos cruzados sobre uma pança abastada, na figura de mãe. Num tom de embalar, o próprio Waters, baixista por excelência, tocou a guitarra da “Mother” enquanto apontava para a tela redonda atrás para que as pessoas vissem em retrospectiva imagens suas de um concerto dado na década de 80, nos primeiros anos de Tour logo após o lançamento do The Wall. Quando ele diz na música “ Should I trust the government?” e acena negativamente, o público aplaude-o vivamente com assobios, sentindo-se mais do que compreendido. No muro, cada vez mais reconstítuido, era projectado a correr da direita para a esquerda algo como “ mummy says: Don’t Worry, every thing will be all right!” que era o que os portugueses queriam e querem ouvir no fundo… Foi uma sintonia mágica! A música é, sem dúvida, uma linguagem universal que só quem a sente a compreende.


Chega-se a uma parte em que a música e o cenário se adensam ainda mais, tornam-se soturnos, inóspitos com a “Goodbye Blue Sky”. A suavidade da música é contraposta às fortes imagens do muro, de aves a transformarem-se em bombas e em aviões de guerra, de cifrões, de estrelas de David aludindo aos judeus e a Israel, do símbolo da Shell a caírem do céu negro, do peso do capitalismo sobre os homens…Depois vem o desolamento da “Empty Spaces“ reflectido na imagem de duas flores a cheirarem-se a envolverem-se e a unirem-se, a transformarem-se em plantas carnívoras, e ao crescimento desenfreado dos arranha-céus num mundo cada vez mais industrializado, com espaços vazios de sentimentos, cercado por um muro construído pelas próprias pessoas, onde a pureza das flores vira arame farpado e os homens bons se transformam e exploram os próprios homens, numa alegoria perfeita sobre o denegrir humano! E para arrebitar as pessoas, sucede a “Young Lust” pela voz que seria do David Gilmour, agora substituída por um convidado de Waters, ao passo que na tela e no muro passavam imagens de mulheres lindas, corpos femininos, sensualidade cinéfila... ouve-se o telefone a tocar e inicia a “One of my turns”, uma música cheia de mudanças vocais e rítmicas que no seu término prepara o público no grito “Why Are you running Awaaaaaay…” para a loucura do isolamento que advém na doentia e cinzenta “Don’t Leave Me Know” . Com esta música há um regresso ao negrume idêntico ao da “Goodbye Blue Sky”, mas é mais doentia, quase que nos lembra um psicopata sozinho na sua insanidade, incitado pela forte cadencia do piano, a guitarra perdida com ida, mas sem volta e a voz do Waters a sumir-se, quase a esvair-se mesmo, uma música que eu dedicava a um colega meu do Carolina Michaelis, o João “Computer Face”( nome que carinhosamente lhe apelidei, pela sua ausência de expressões faciais!) por vê-lo sempre isolado no recreio, nos corredores e nas salas de aula…


Quase que levando um estalo, o público acorda com a rapidíssima “Another Brick in the Wall (Part III)”! Houve-se um grito do Waters, 4 ou 5 murros num vidro que seria duma tv onde estariam a dar noticias, vêem-se rachadelas nesse vidro projectado, as imagens do noticiário multiplicam-se até que o vidro estilhaça de vez e a música irrompe, assim como as luzes atrás, na tela circular, de dentro do muro para fora, através das brechas! Nessa altura já o muro estava quase todo construído, faltando apenas três brechas centrais, para se poderem ver alguns músicos e o próprio Waters. Poucos “bricks in the wall” faltavam realmente! As imagens do muro eram também elas rápidas, de confrontos, interferências como se fossem de televisão, raios, flashes, as estrelas de David, as marcas de produtos mais vendidos no mundo! O muro era agora um enorme, brilhante e ofuscante plasma à nossa frente! A projecção era de um muro sobre o muro, e nessa projecção vêem-se blocos a desaparecerem. O pavilhão está todo às escuras. Nessas falhas de blocos da projecção, fica tudo negro por baixo, o que dá a impressão de faltarem blocos a sérios, mas o muro mantém-se lá, firme e hirto! Os blocos parecem que explodem e vão desaparecendo em fade away e a pulsação é obrigada a baixar. Fica tudo definitivamente escuro. Um único rectângulo central do muro é o que resta para o fechar. Waters assoma iluminado por uma forte luz azul que sai detrás de si e ilumina o público, como se fosse uma janela, e tenta cantar a pequena“Goodbye Cruel World”. Custa-lhe a começar, aliás não é cantar é falar, pois nesta música é o que ele faz…custa-lhe porque os gritos de satisfação do público, as palmas, os infinitos flashes das máquinas que eram proibidas desde o inicio do show, as lágrimas dos fãs perante tamanha beleza, são tão grandes, que ele olha-nos cala-se por momentos, também ele emocionado pelo que acabava de provocar…e ele próprio pega na última tampa que servia de bloco, e fecha o muro, criando definitivamente a separação do palco e do público. Aparece em letras brancas no escuro do muro “Intermission”.


Durante os quase 20 minutos que se seguiram tivemos um intervalo. O meu recém companheiro aproveitou para ir beber. Nesses minutos o pavilhão atlântico era um pavilhão com luzes semi-ligadas, som clássico de fundo e um muro activo, onde passavam imagens dos óbitos dos cadernos de guerra. Eram velhos militares, activistas, repórteres, jornalistas, enfim, um registo necrológico de fotos e breves descrições digitalizadas de folhas com linhas, sempre a mudarem no grande painel. E a plebe estava entretida a ler e a comentar apontando o grande muro em simultâneo.


Lights off e ouvem-se os acordes da “Hey You”. Apenas o grande muro iluminado de branco e a música a vir detrás deste. Não se viam os artistas nem o Roger!! Esta exibição serviu para deixar o público ainda mais surpreso. Poderia o senhor estar muito cansado ainda no seu intervalo e ter feito playback que ninguém daria por ela! Quando profere a palavra “brain” da parte “No matter how he tried, He could not break free. And the worms ate into his brain.”,o muro branco projectado no muro abre uma brecha na imagem, mesmo a meio, uma brecha preta como se fossem dois muros a abrirem-se, donde vem um animal a correr parecendo ir contra a camera, manchando o muro de vermelho, voltando-se de seguida a fechar-se simbolicamente e a tomar a tonalidade cinza clara, para dar a vez a “Is There Anybody out There?”. Dois olhos humanos a olhar para o publico são agora projectados no muro e não tardam holofotes são apontados sobre a multidão, como se fossem os focos duma cadeia a apontar para o interior para verificar se algum recluso está em fuga, até que dois blocos são mesmo retirados e vê-se um artista com a sua guitarra clássica a tocar para o público. Sem que as pessoas se apercebam que do lado esquerdo está a abrir uma grande porta , escuressem propositadamente o muro e surgem dois grande aviões em direcção ao publico, para dar tempo da música entrar, de vermos depois o Roger Waters a cantar sentado no sofá, junto a um candeeiro e uma tv, nessa mesma brecha/porta que abriu de cima para baixo sem que o púbico notasse! No preciso momento em que a guitarra da música começa, Roger liga a luz da sala e canta para nós embalado por um piano vivo! Foi um toque magistral. No final dá-se a imagem duma explosão dum avião a despenhar-se em queda no grande muro e Waters corre para dentro como se estivesse fora do tempo, a porta fecha-se de baixo para cima, com a sala improvisada pregada ao próprio muro desaparecendo para lá deste, sem a ajuda de ninguém, tal qual uma porta automática!


Chega a música a sentimental “Vera”, com imagens duma menina a receber o seu pai soldado, e de abraços de soldados…até que a bateria soa ritmada, exactamente como uma parada militar e finalmente surge Waters em pé à frente do muro, com as imagens dum tanque por trás, como um soldado no meio do mato seco, de braço no ar a gritar “Bring Boys Back Home!” , sucedida de vários cenários de destruição, crianças famintas e moribundas, sob a frase gigantesca “Every gun that is made, every warship launched, every rocket fired signifies, in the final sense, a theft from those who hunger and are not fed, those who are cold and not clothed” de Dwight Eisenhower …duas músicas pequenas mas com muitos efeitos visuais e vocais que foram absolutamente de cortar a respiração!


Eis que chega a “Confortably Numb” uma das melhores músicas dos Pink Floyd, com um dos melhores solos de guitarra na história da música! Atrás de si, abre uma brecha simbólica branca, como se fosse a entrada de luz de fora do muro, e ele canta gesticulando para nós! Na voz que seria do Gilmour, vê-se um dos convidados no alto do muro a cantar para baixo, e o Waters a puxar por ele cá de baixo com os braços e do lado direito muro um guitarrista de cabelo comprido que imitou quase na perfeição Gilmour na guitarra, Dave Kilmister… e a brecha branca central do muro ia torcendo como uma espiral, à medida que o solo enrodilhava ainda mais e deixava o publico zonzo de tanta perdição! Nisto, do lugar onde eu estava consegui ver Roger Waters à procura dum ponto do muro, até que finalmente vai atrás duma discreta luz vermelha que lhe apontava o local onde tinha que bater e com a cabeça bate no muro e põe os braços em volta como símbolo de desespero…no momento em que bate no muro, vêem-se blocos a partir num colorido tipo arco-íris enorme na imagem projectada e um sol forte, vivo, ofuscante no fundo e ele de costas para nós, vibrava somente com os braços em movimentos ascendentes. Tão ascendentes como o solo de guitarra e como o sol do muro! Do lado esquerdo de cima do muro é lançado um porco preto insuflável, com os desenhos graffitados dos símbolos que tinha passado no muro na música “Goodbye Blue Sky” e com a frase “Trust Us” entre o lombo e a coxa do suíno! Este porco daria a volta aérea pelo pavilhão até ao fim do concerto. É o triunfo dos porcos, aquele em que acredita!


Surge novo truque de imagem, aparece uma linha branca horizontal no bordo superior do muro para abrir a imagem de pilares brancos que se assemelham a grades duma prisão, enquanto em baixo, no escuro, surgem os instrumentos em frente ao palco, vindos de trás do muro para a frente, por debaixo do muro e do palco! Novamente sem palavras! O coro é prestado pelos militares de boina vermelha que teriam entrado na musica de abertura, “In The Flesh” e que figurariam na musica a seguir “In The Flesh 2”. Entre os pilares da imagem, caiem panos pretos com as suásticas dos martelos. No cimo do muro esvoaçam as bandeiras reais agora pousadas ou seguras nas mãos dos tropas, não sei bem, porque de cá de baixo não via bem, o muro era alto! Assim, o Roger saca duma G3 de brincar e começa a dar tiros sobre o público e sobre o muro e as suásticas, fazendo esses panos caírem simbolicamente! Depois de tirar a gabardine de Furher novamente, diz alto “ Alright, I get paranoid in Lisboa tonight!” e o público berra “Roger Roger Roger” ! E ele grita que a próxima música é “Run Like Hell”! Sem tirar os óculos e a apontar para o público com a braçadeira do Fuhrer ainda posta e a gesticular a corrida com dois dedos, canta eufórico frente à multidão aos saltos! Os clarões sucedem-se no muro, entre os pilares, com frases a grafitti vermelho e blocos a mudarem, como que a limparem a palavra anterior, sempre no segmento do “I” etc, “ I Lead”, IProtect”, IFollow”, “IResist”, “IProfit”, “ILose”, “You Better Run!”, “I Teach”, “I Learn” , “I Believe” com as caras dos lideres comunistas da Rússia e da China, “IPaint” com a cara do Hitler, “IKill”, “IPay”, até que o porco preto insuflável,jade regresso, é iluminado com um foco vermelho em cima do muro, no lado esquerdo e desaparece! E continua a ilusão de óptica de que no muro os blocos estão soltos sobre o público e há helicópteros atrás a dar sinais de luzes ou holofotes! Roger volta a dar tiros sobre uma faixa escrita que é debruçada simbolicamente no muro! Inicia a “Waiting for the Worms” . Vemos aqui imagens de minhocas gigantes castanhas avermelhadas a ziguezaguearem entre as grades da prisão! Depois pega num megafone e canta com ele, com o velho vídeo dos martelos a marcharem sobre as aldeias e cidades. Toca depois a fugaz “Stop” e inicia a “Trial” que mais se parece uma banda sonora de desenhos animados, já que a tela era só desenhos da história do The Wall. As pessoas gritam juntamente com o vídeo “Tear Down The Wall”, até que o muro abana a partir de cima, caiem dois blocos e depois cai o resto do muro! As pessoas afastam-se pois os blocos mesmo de esferovite causaram poeira e aparato com a queda! O pavilhão fica às escuras e só o que resta do muro onde figura o busto de uma mulher aviadora em cada lado a bater palmas e a tela redonda atrás é que ficam com tonalidades vermelhas! Os 12 músicos vêm para a frente do palco e dos blocos verdadeiros partidos cá em baixo e tocam a última música “ Outside The Wall”. Luzes vermelhas e brancas alternadas ligaram-se sobre o que seria o topo do muro. Uma chuva de papéis vermelhos é lançada sobre as pessoas. Eram cruzes de Cristo (simbolizariam a Religião ou mortes durante as guerras mundiais e do conflito Israelo-Árabe), estrelas de David (alusivos à perseguição dos judeus, o Holocausto), símbolos da Shell ( o Consumismo?), o dólar ( a moeda, o Capitalismo?!) quartos de lua ( para caracterizar os países do Oriente ?),que os apanhei a todos no fim do espectáculo, juntamente com muitas outras pessoas de rabo para o ar à cata no chão!...”Obrigado Lisboa” repetiu vezes sem conta! “We had a fantastic audience” e algo como” Quando lançámos este álbum não tivemos o respeito que temos hoje!”… em jeito de saída mas ainda a tocarem à medida que iam abandonado o palco, ele dizia a cada um dos músicos“ Obrigado to…” .

No fim, disse entusiasmado “Obrigado to SNOWY WHiTE” ( ex-Thin Lizzy) e”Obrigado to David Kilmister” que anda com o Roger na estrada há muito tempo a fazer os solos do Gilmour! “Obrigado for me” a bater no peito e de punho cerrado no ar! Adorável e memorável!


Ofereceram-me uma t-shirt à escolha, tive companhia para beber uma água cá fora enquanto o comboio não vinha, e no comboio tive a companhia dum fotógrafo do concerto, o caminho todo até Espinho, pena foi que a minha cabeça inundada de emoções acabasse por tombar diversas vezes para a frente! Sou muito grata por ter tido uma noite fantástica como esta! Ainda hoje me comovo na lembrança do que se passou naquele dia 21 de Março! Ouvi dizer que foi o último concerto a solo que deu em Portugal…Espero ainda poder vê-lo a comemorar os 30 anos do álbum “Final Cut”, a sua segunda “filha”, segunda Obra-Prima…Quem sabe?!


Celebrei a entrada na Primavera da melhor forma possível, e isso ninguém me pode tirar!

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